Consumismo

Posted: 04/03/2012 in *** Todos ***, Veganismo

Em meados de junho eu tomei a decisão de mudar meus hábitos alimentares. Eu segui o que meu coração e meu corpo me diziam como certo e adotei de vez uma dieta 99% baseada em plantas. Bem no fundo, eu sabia que a mudança não ia afetar somente o meu corpo, ou como eu me sinto. Eu sabia que eu estava entrando em um outro nível de consciência, uma consciência mais desperta, mais atenta para as pequenas escolhas do dia a dia.

Somente pelo fato de prestar atenção na comida que eu consumo, uma gama de outras coisas começou a chamar a minha atenção.

Meio que instintivamente eu me dei conta que eu estava utilizando menos espaço na minha vida, menos recursos naturais, simplesmente menos. 

Só pelo fato de ter cortado o leite e o queijo da minha alimentação, menos terreno é preciso pra plantar soja ou grãos para alimentar a vaca; não é preciso o espaço pra vaca viver, nem os equipamentos para tirar o leite, ou o combustível para transportar, ou o plástico para empacotar, ou o papel para identificar a marca, ou o lixo aonde eu colocaria a caixa vazia de leite depois.

O mesmo com os ovos, e todas as carnes, e todas as comidas altamente processadas que vem de fontes animais ou não.

Pelo fato que eu estava me alimentando de coisas orgânicas e frescas, que ficam velhas mais rapido e não podem viajar grandes distâncias, tudo na minha vida ficava mais próximo. Eu comecei a ler os rótulos dos produtos que eu comprava, e percebi que minha maça vinha de uma cidade que fica a duas horas daqui, o meu pepino do estado vizinho… E quando algo era de outro país, era do país mais próximo aonde você pode encontrar aquilo, como as castanhas e produtos de soja que vem da Austrália(na época eu morava na Nova Zelândia).

Ao mesmo tempo que eu me dava conta do espaço que eu ocupo no mundo, o meu corpo estabelecia uma outra relação com a comida. Ao invés de pensar no que EU quero, ou no que a minha língua quer, o meu organismo me dava sinais do que eu precisava naquele momento. As vezes era uma xícara de chá verde, ou uma cenoura, ou as vezes era algo com bastante gordura e açúcar, como um pedaço de chocolate amargo. O meu corpo começou também a me dizer quando estava satisfeito daquilo. Como a comida que eu escolhia agora era realmente designada para minha espécie, eu sabia  quando era o suficiente. Era como um sinal interno dizendo:  ‘Reserva de proteína: Completa. Reserva de carboidratos: 80%. Precisamos de mais água.’

Pode parecer algo super controlado e preciso, mas na verdade foi algo tão natural, que tornou ainda mais fácil e prazeroso seguir em frente na minha escolha. Eu não precisava pensar no que comer, eu sé precisava sentir o que meu corpo queria.

E eu me dei conta de que eu precisava menos de quantidade, e mais de qualidade. Meu espaço na geladeira ficou mais vazio, meu lixo demorava mais pra ficar cheio. E do mesmo modo minha mente ficava satisfeita com menos.

Eu, como a maioria das mulheres que eu conheço, tenho um lado consumista que as vezes vai além do que eu realmente preciso. Sem mentiras, todos os dias na volta do trabalho pra casa eu descobria alguma coisa nova que eu realmente não podia viver sem a partir daquele momento. Mulheres, vocês sabem do que eu estou falando. Esse meu lado consumista encheu meu quarto e todas as minhas prateleiras em uma velocidade absurda. Em uma semana eram livros; na outra cosméticos; na outra flores exóticas da jamaica. E assim como meu corpo precisa de alimento, eu cheguei a um ponto aonde minha mente precisava de coisas. Não somente comida, mas coisas. E essas coisas na verdade não significam nada mais que um objeto a mais ocupando um espaço no mundo. Mas de alguma forma eu precisava delas.

E pode parecer estranho como mudar algo tão randômico como um hábito alimentar pode afetar isto também, mas comigo aconteceu.

Quanto mais o meu corpo se sentia realmente nutrido pela comida que ele recebia, mais a minha mente ficava clara do que era necessário e do que era supérfluo. ´E simples como isto: jantar é necessario, sobremesa supérfluo(nem sempre ).

E de repente aquela super nova cor de batom já não me atraía mais. Afinal, eu ainda tenho aquele velho batom em casa. Se um dia ele acabar, com certeza eu vou à procura de uma super nova cor pra substituir a antiga, e a sensação de ter me dado um presente vai ser ótima, e eu definitivamente vou aproveitar ela. Mas eu não preciso sentir isso todo o santo dia, nem toda semana. Afinal, existem tantos outros presentes que eu posso me dar a cada segundo: Aquele copo de chá; aquela respiração profunda no primeiro ar da manha; a oração ao ver o sol… Esses presentes não só me satisfazem, eles me nutrem (e meu cartão de crédito agradece). E com o tempo este pequeno espaço que eu ocupo, mesmo que esteja ficando menor, esta mais precioso, mais cheio de cuidado e amor por cada pequena coisa que ocupa ele. E mesmo que seja só um espacinho no mundo, eu posso realmente chamar de meu.

Qual o tamanho do seu espaço no mundo?

(Por Caroline Da Costa)

Obs:  Caroline Da Costa é a autora do blog www.mangaemanjericao.com

 

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Comentários
  1. Lucas diz:

    Muito bom o seu texto / história de vida, e também inspirador para pessoas que estão dando os primeiros passos do vegetarianismo ( e quem sabe Veganismo no futuro ). Muito interessante esta ligação que você fez entre a exploração animal e o consumismo. Realmente ao parar com um derivado animal, vc deixa de usar muitas outras coisas e não só a exploração em si. Obrigado por me fazer refletir mais =)

  2. Ótimo texto!!! Ao parar de comer carnes também passei a enxergar o couro nos sapatos e bolsas, os inúmeros cosméticos testados em animais, a origem do mel, dos ovos, do leite. A partir daí você é uma pessoa nova, diferente, contestada pelo outros, porém mais atenta, menos consumista e no meu caso pelo menos, muito mais satisfeita e realizada.

  3. Que inspiração! Vou guardar seu texto para ler sempre. Quero ser assim, ter essa leveza, essa consciência, essa paz que só com esse escrito já é possível sentir. Parabéns e muito obrigada!

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